
O herpes genital é uma infecção crônica e que acompanha o paciente por toda a vida. Embora os tratamentos atuais consigam controlar os sintomas, eles não são capazes de curar a infecção ou impedir a transmissão do vírus. No entanto, cientistas da Escola de Medicina de Yale (Yale School of Medicine) deram um passo significativo em direção a uma vacina que, em modelos pré-clínicos, conseguiu prevenir a infecção.
Em um estudo publicado em 19 de junho na revista científica Science Immunology, os pesquisadores avaliaram uma vacina dividida em duas etapas. A técnica consiste em uma primeira aplicação intramuscular convencional — semelhante à vacina da gripe — seguida pela introdução de nanopartículas na vagina, local onde ocorre a infecção por herpes em mulheres.
A lógica por trás do método é que a injeção inicial serve para "preparar" (prime) o sistema imunológico, enquanto o segundo tratamento localizado "atrai" (pull) a atividade imune diretamente para o local onde a infecção acontece. O estudo amplia a abordagem original de "preparar e atrair" ao desenvolver uma nova nanopartícula que induz a imunidade local de forma eficaz.
"Descobrimos que, em experimentos pré-clínicos, essa abordagem é uma maneira segura de recrutar as células imunes certas no lugar certo para gerar imunidade protetora."
— Dra. Akiko Iwasaki, autora sênior do estudo e professora de Imunobiologia em Yale.
Os esforços anteriores para criar uma vacina contra o herpes genital esbarravam em uma limitação crucial das injeções intramusculares tradicionais: elas não conseguem estabelecer populações robustas de células imunes ou anticorpos no revestimento vaginal, limitando a eficácia do ataque ao vírus.
Para solucionar o problema, o laboratório liderado por Iwasaki testou duas estratégias isoladas no passado:
Uso de quimiocinas: Proteínas que direcionam células de defesa, mas que geraram apenas proteção parcial por não engajarem as células B.
Molécula de DNA estimulante: Reduziu a quantidade de vírus, mas causou inflamação local.
A solução veio ao combinar as duas estratégias. O pós-doutorando Sachin Bhagchandani liderou a criação da BEACON (Bioactive Enhanced Adjuvant Chemokine Oligonucleotide Nanoparticles), uma nanopartícula estável que une o pedaço de DNA imunoestimulante à quimiocina.
Com a BEACON, os pesquisadores conseguiram atingir apenas as células certas para gerar a imunidade, em vez de afetar todas as células de forma generalizada. Isso permitiu usar uma quantidade muito menor da molécula de DNA, evitando o desenvolvimento de inflamações.
Nos testes pré-clínicos com camundongos fêmeas, as cobaias receberam a dose intramuscular e, depois, a BEACON junto com o antígeno do vírus por via intravaginal.
Os resultados foram promissores:
A BEACON estabeleceu respostas fortes de anticorpos e células imunes no tecido vaginal que duraram a longo prazo (pelo menos seis meses).
Quando expostos ao vírus do herpes, 80% dos camundongos que receberam o tratamento combinado não mostraram sinais da doença.
Em comparação, apenas 40% dos camundongos que receberam apenas a injeção intramuscular tradicional ficaram protegidos.
"Isso nos mostrou que essa abordagem pode ser profundamente impactante, estabelecendo respostas imunes locais por um período de tempo significativamente longo."
— Dr. Sachin Haresh Bhagchandani, autor principal do estudo.
Os pesquisadores agora avaliam se o método "preparar e atrair" também pode ser usado para tratar infecções já existentes, além de preveni-las. O foco também está em como adaptar a tecnologia para seres humanos. Em parceria com o laboratório Appel, em Stanford, a equipe estuda transformar a BEACON em um supositório vaginal. Além disso, os cientistas exploram uma abordagem nasal (onde a atração imune ocorreria no nariz), o que permitiria que o tratamento também funcionasse para homens.
Embora os testes clínicos em humanos ainda dependam de etapas futuras, o objetivo final é claro: criar uma vacina que reduza o impacto físico e social da doença.
"Muito do sofrimento pelo qual os pacientes passam não é apenas físico; é mental e social", destaca a Dra. Iwasaki. "Mas os vírus são os mesmos — seja gripe, vírus Epstein-Barr ou herpes simples, não é culpa da pessoa ter contraído. E ainda assim há muito estigma. Esperamos que esse tipo de estratégia previna doenças que afetam as pessoas de maneira profunda."